Lacan e o problema do amor

29 ago

“(…) só os mentirosos podem responder dignamente ao amor (…)”  (Seminário 8, p. 36).

“(…) o amor é dar o que não se tem.” (Seminário 8, p. 41).

“O que falta a um não é o que existe, escondido, no outro. Aí está todo o problema do amor” (Seminário 8, p. 46).

A refletir…

+1 indica: Lançamento do livro “Ópera Brasil de Embolada”, hoje!

26 ago

Querid@s,

Um querido amigo está lançando mais um livro hoje na Casa da Gávea. Vai ser um evento no mínimo prazeroso! Não percam! Abaixo, um pequeno trecho sobre o livro…

O “Ópera Brasil de Embolada” (lançamento 5a, dia 26, na Casa da Gávea) é a história de um sujeito chamado Brasil que conhece uma moça chamada Europa, se apaixona por ela e pra conquistá-la começa a contar tudo de bom que ele tem. O texto, do Rodrigo Bittencourt, é sensacional pra qualquer idade, e as ilustrações do Maurício Negro completaram o livro que nem feijão com arroz da melhor qualidade! (por Maria Rezende).

+1 indica: “A constituição do sujeito” (curso)

24 ago

objetos exibicionistas

24 ago

Dando continuidade à leitura de Catherine M. deparo-me com a seguinte observação: a autora cita um comentário de Salvador Dalí sobre os mecanismos psicológicos correlacionados a uma hiperatenção a objetos que normalmente não chamam a atenção de uma maioria. Dalí publica uma foto onde duas mulheres estão entre um homem, todos ao lado de uma vitrine. Acontece que Dalí está preocupado com o “objeto exibicionista”, aquele carretel que salta aos olhos. Um carretel caído no meio da rua e que um observador comum não atentaria.

Dois mecanismos psicológicos estariam em ação: um seria tipicamente freudiano, a saber, que essa tendência a procurar por aquilo que se esconde nada mais seria que uma busca pelos órgãos sexuais, tão escondidos que estão. Atentar para uma colherzinha na casa de um amigo, quando este encontra-se distraído preparando o café da tarde, é adentrar sua intimidade. O outro mecanismo seria o de fugir à geometria euclidiana e sua pirâmide. Fugir às hierarquias, àquilo que é dominante. Dessa forma, o olhar busca a diferença, ou melhor, aquilo que é indiferente: longe da hierarquia de classes e da dialética da estética, de luz e sombra, por exemplo.

A ideia de pensar sobre mecanismos psíquicos por trás de uma observação detalhista mexeu com a minha curiosidade. A princípio algo que não tenderíamos a dar muito valor: “olhe para o casal, pois é isso que importa”. Descobrir que esse ato pode esconder algo é no mínimo interessante. Eu diria que o primeiro mecanismo é difícil de ser aceito por aqueles que não praticam a psicanálise. Neste caso, temos que partir do princípio que nossos atos (incluíndo aí os pensamentos) estão envoltos de fantasias inconscientes. O segundo mecanismo parece de mais fácil aceitação. Transgredir à norma é algo que conhecemos bem…Coisa de gente!

+1 indica: “Infância abreviada, adolescência prolongada” (palestra)

18 ago

O amor romântico, Balint e aS psicanáliseS.

17 ago

Cada novo livro que pego para ler – sendo que a maioria não são de fato tão novos assim, mas comprados há tempos e que aguardavam a minha leitura -, surpreendo-me com aS psicanáliseS. Pela segunda vez, reencontro Balint (1896-1979, psicanalista húngaro). Agora, em “Sem Fraude Nem Favor: estudos sobre o amor romântico” de Jurandir Freire Costa, onde o autor traça algumas das contribuições de Balint para a psicanálise, principalmente em relação à sexualidade infantil ou pré-genital. Ainda engatinhando em seu pensamento, compreendi que para Balint não haveria “voluptuosidade” na infância:

“Dizer que o ‘erotismo’ do amor primário difere da voluptuosidade, sensualidade ou descarga genital é dizer que este erotismo tem muito pouco em comum com a ‘sexualidade pré-genital de Freud'” (p. 124).

Além disso, para ele, toda idealização do objeto e a ternura amorosa não seriam resultantes de um desenvolvimento libidinal, mais especificamente, de um recalque das pulsões incestuosas, ou seja, uma das saídas do Complexo de Édipo,  mas sim um “artefato cultural”. Ressalta que em algumas culturas não há essa idealização, muito menos ternura. Sexo e amor são coisas distintas para Balint. O amor não seria, assim, uma sublimação das pulsões sexuais recalcadas.

Acho suas ideias revolucionárias. No entanto, todas suas hipóteses, assim como as de Freud, surgem a partir da clínica. O que se coloca para Freud, por exemplo, é que o que li a respeito da construção de sua teoria, muitas vezes ela teria sido “forçada” ou, então, rapidamente concluída. Lembro sobre o caso Schrebber e o Pequeno Hans, onde em nenhum dos casos, Freud realizou uma análise com tais “pacientes”. O primeiro foi uma análise de um livro de memórias e o segundo, através do relato do relato do pai do menino. Isso desmereceria de alguma forma as construções teóricas freudianas? Temos aí uma questão.

Quanto à Balint, parece que sua teoria está somente calcada no que VIA  e EXPERIENCIAVA na clínica. Para ele, a criança quer ser amada e só desenvolve a capacidade ativa para amar quando percebe que para ser amada precisa retribuir, ou seja, isso seria uma força a mais, amar ativamente dá trabalho. Fala-se em tendência ao agarramento. E como isso é real, não? Adultos, inclusive, que não cansam de buscar alguém para se agarrar. Sufocante, não? Amam para serem amados. 

Achei alguns dos livros do psicanalista húngaro na internet:

http://scholar.google.com.br/scholar?q=Michael+Balint&hl=pt-BR&lr

Have fun!

E aguardo comentários…gostaria de trocar mais a respeito.

+1 indica: “Ética da Paixão” (livro)

17 ago

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RESENHA dos livro “Ética da Paixão” de Marcus André Vieira:

Letícia Nobre

Bolsista recém-doutora (CNPq) no Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Ipub-UFRJ). letnobre@openlink.com.br

 A ética da paixão: uma teoria psicanalítica do afeto. Marcus André Vieira. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2001

“A vida é curta demais para contentar-se
com palavras. E difícil demais, porém, para
dispensá-las.”

(COMTE-SPONVILLE, A.)

Extrair da paixão sua ética permite determinar o sujeito na responsabilidade de seu ato, apontando a reversão fundamental operada pela psicanálise no campo dos afetos. Pois, se o afeto encontra-se tradicionalmente aproximado do mundo energético que anima a existência humana, em oposição à razão que lhe dá sentido, observa-se que com a psicanálise, a ilusória dicotomia entre corpo e mente é prontamente interrogada pelo próprio advento do inconsciente em sua função discursiva. Sendo assim, o afeto já não se estabelece mais como um quantum de energia amorfo, por vezes caótico, quase animal, impropriamente descarregado sobre um pobre corpo que dele padece. Pelo contrário, o que o livro de Marcus André Vieira vem demonstrar com precisão e clareza é a pertinência do afeto, mantidas as peculiaridades de tal pertinência, ao enredo significante que tece as tramas da implicação do sujeito em seu destino. Isso não quer dizer que o autor reduza o afeto à sua função significante nem tampouco que o faça corresponder a um estado prévio à representação. Descreve-o, isso sim, em sua conexão com pontos cruciais da constituição do sujeito, tocados pela experiência analítica, tais como pulsão, desejo e gozo. E será mesmo essa, a do sujeito no particular de sua constituição, a via que o autor de algum modo privilegiará para estabelecer com seu livro uma minuciosa cartografia da complexa teoria psicanalítica do afeto tal como proposta por Freud, ressaltando que “esta teoria deve manter-se, tal como a própria psicanálise, estruturalmente precária do ponto de vista de sua universalização” (p. 15). Mas, se pela via exclusiva do particular seríamos certamente conduzidos a uma infinitude de histórias clínicas, que de nada contribuiriam com os esforços de formalização e transmissão do lugar do afeto na psicanálise como indicativo da posição do sujeito, também uma apropriação exclusivamente universal do tema nos traria o risco de uma exegese da noção de afeto bastante distante de sua incidência em termos discursivos.

Evitando assim qualquer uma das duas exclusividades, o autor permite-nos acompanhá-lo na rigorosa construção de um saber sobre a questão do afeto em psicanálise, saber esse que, fundado na ignorância das regras que o constitui, mantém-se exemplarmente localizado por Marcus André Vieira no intervalo entre o particular clínico e o universal conceitual. Apresenta-nos, para tanto, a possibilidade de que seu livro — acrescido de índices temáticos e de uma coletânea de citações escolhidas —, consista em “um guia para a leitura de Freud e de Lacan sobre o afeto que pode servir tanto para iniciantes quanto para praticantes” (p. 16). Nesse sentido, revela-se o cuidado do autor na revisão de conceitos freudianos fundamentais, necessária ao bom atravessamento do tema, bem como a articulação destes a referências clínicas que possibilitem sua delimitação ética. Porém, é no “segundo roteiro de leitura” (p. 16), eleito pelo autor como seu preferido, que a presente publicação adquire, de fato, toda sua originalidade, afastando-se em definitivo de sua origem acadêmica como tese de doutorado. Pois, se com a indicação para esse segundo roteiro, de que a leitura do livro se dê a partir de seu final, o autor já demonstra uma abordagem bem pouco convencional do tema em questão, sinaliza ainda mais, com o inusitado de tal indicação, os efeitos de uma subversão aí produzida. Estabelece-se assim uma relação de avesso, em um “sentido inverso do primeiro”, entre as duas possibilidades de leitura por ele assinaladas. Mas, ainda que, em ambas as direções o afeto se encontre desde sempre distanciado de qualquer concepção biologizante que certamente o descreveria em termos corporais de descarga e/ou de acúmulo de energia, será propriamente na segunda via de leitura proposta que o afeto encontrar-se-á inscrito em sua radical aproximação ao que é da ordem do dizer. Exige-se, então, que o afeto seja agora examinado à luz dos rigorosos parâmetros que fundam e que sustentam a ética da paixão na psicanálise.

“Ética da paixão, aqui, afirma que existe não somente uma leitura psicanalítica do afeto, mas que existe também um discurso freudiano das paixões, que encerra em si a única realização possível desta teoria. (…) Somente assim os efeitos dessa nova leitura dos afetos podem passar da análise para a vida e da psicanálise para a cultura.” (p.16, 17)

Mas, afinal, de que modo se organizam no livro de Marcus André Vieira os termos fundamentais dessa nova leitura dos afetos? Partindo do que ele propõe como “discurso em ato”, o autor, ao invés de reunir os afetos em uma lista conceitualmente exaustiva, demonstra a “lógica de funcionamento” que regula os jogos da paixão, em que os afetos encontram-se discursivamente dispostos e a lógica tem, por princípio, o não-conhecimento apriorístico das regras que constituem tais jogos. “O afeto é este jogo de linguagem tanto mais apaixonante quanto mais se funda sobre a ignorância de seu fundamento pulsional” (p. 17). Nessa direção, nenhum afeto se mostra mais apropriado do que a angústia para introduzir o exame da lógica assim demonstrada. “Tudo começa com a angústia” (p. 163), nos lembra o autor, e esta servirá, de fato, como a situação paradigmática que aponta para a precariedade dos recursos neuróticos frente a incidência do desejo do Outro. Definida como “uma experiência de desmoronamento radical das escoras subjetivas” (p. 163), a angústia, tal como encontra-se apresentada no último (ou no primeiro) capítulo do livro, franqueia o acesso do leitor ao mapeamento dos afetos que compõem o sentido da existência do sujeito. Tal mapeamento apresentará, então, um elaborado estudo de afetos como amor, ódio, ignorância, fúria/ciúme e inveja, depressão/luto e tristeza, alegria e mania, culpa/temor e piedade, dentre outros. Porém, se em um caminho natural estaríamos, a partir desse estudo, próximos da configuração de um compêndio sobre os afetos, a destreza do autor em manter seus enunciados inscritos em uma lógica estritamente psicanalítica, enlaçando-os com o fino “fio da experiência analítica” (p. 232), não permite que esse fechamento aconteça. Pois, se o autor conclui que

“o afeto pode se constituir como um meio de abordagem da ética da psicanálise. Ele nos faz ver o invisível. Permite ouvir algo desta ética, silenciosa mas falante, particular mas transmissível, pois transpõe a tragédia para o espaço do drama menor da cena afetiva, que ele representa” (p.238)

mantém mesmo aí, em sua conclusão, pontos de abertura na questão dos afetos, essenciais à manutenção do “discurso em ato” inicialmente proposta; douta ignorância que opera e faz trabalhar.

E é mesmo por esse chamado ao trabalho que A ética da paixão: Uma teoria psicanalítica dos afetos convoca o leitor a abandonar seus “pré-conceitos”, biológicos e/ou psicológicos, relativos ao afeto para enfrentar, no jogo das paixões, as dificuldades de sua apreensão. Para tanto, o capítulo que no livro trata das “Questões de método”(p. 146-162) situa claramente, a partir de algumas distinções metodológicas, os bons instrumentos necessários a esse percurso.

Enfim, se a partir do livro de Marcus André Vieira podemos perceber a complexidade que envolve o tema dos afetos, especialmente se o enfrentamos com o rigor que a psicanálise exige, é também daí que depreendemos a relevância de seu estudo. Pois, se “o afeto interessa, antes de mais nada, porque ele é a substantificação da paixão”, é como “âncora do sentido” (p. 235) que ele tomará sua função, desde onde o sujeito é possível advir. Para tanto, deve-se seguir a interessante indicação do autor recolhida no texto de Lacan: “Não devemos tomá-lo (o afeto) como substantivo, mas sim fazê-lo passar ao verbo” (p. 234).

Só assim, “a descoberta da gramática de uma estrutura singular é o que permitirá inventar o paradoxo de um saber, sempre já escrito e, ao mesmo tempo, novo, que opera no tratamento e na vida” (p. 17).